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Ian Caldwell & dustin thomason - старонка 15


Capítulo 15



Permanecemos praticamente em silêncio enquanto saímos de Woolworth. Paul caminha um pouco à minha frente, deixando certo espaço entre nós, e ao longe posso entrever a torre da capela. Os carros de polícia estão estacionados próximo a ela, protegendo-se das intem­péries como sapos debaixo de um carvalho. Filas de policiais formam uma barreira ao vento que começa a se extinguir. O anjo de neve de Bill Stein deve ter ido embora, não há ondulação alguma na neve.

Chegamos ao Dod e encontramos Charlie se preparando para dormir. Ele fez faxina na saleta, ordenando papéis dispersos e arrumando a correspondência fechada em pilhas, tentando esque­cer o que vira na ambulância. Depois de consultar o relógio, ele nos lança um olhar de desaprovação, mas está demasiado cansado para nos repreender. Ouço Paul explicar o que vimos no museu, sabendo de antemão que Charlie vai insistir para que chamemos a polícia. Depois que esclareço que estávamos examinando os per­tences de Stein quando encontramos as cartas, até mesmo Charlie parece rever sua posição.

Paul e eu entramos no quarto e trocamos de roupa em silêncio, depois vamos para as nossas respectivas camas. Enquanto estou deitado, lembrando a emoção em sua voz quando ele descreve Curry, me ocorre algo que nunca havia compreendido antes. Havia, ainda que de maneira efêmera, uma tranqüila perfeição na relação entre eles. Curry nunca havia conseguido compreender o Hypnerotomachia até Paul entrar em sua vida e aclarar-lhe as dúvidas, sob a condição de que pudessem ter isso em comum. E Paul havia passado por muitas privações, até que Richard Curry entrou em sua vida e proporcionou-lhe o que ele nunca tinha tido, sob a condição de que pudessem usufruir disso juntos. Como Della e James na velha história de O. Henry - James que vendeu seu relógio de ouro para comprar pentes para o cabelo de Della, e Della que vendeu seus cabelos para comprar uma corrente para o relógio de James -, seus presentes e sacrifícios combinavam perfeita­mente. Mas dessa vez há uma troca feliz. O que um tem para dar é o que o outro precisa.

Não posso recriminar Paul por ele ter esse tipo de sorte. Se alguém a merece, é ele. Paul nunca teve família, um rosto em um retrato, uma voz do outro lado da linha. Mesmo depois da morte de meu pai, eu tive todas essas coisas, por mais imperfeitas que fos­sem. Há aqui, todavia, algo maior em jogo. O diário do portuário pode provar que meu pai estava certo sobre o Hypnerotomachia - que ele percebeu corretamente, através da poeira do tempo, através da floresta de línguas mortas e das xilogravuras. Eu não acreditei nele, achando que era ridícula, vã e limitada a idéia de. que pudesse haver algo especial em um livro velho e maçante. E durante todo aquele tempo, enquanto o acusava de erro de perspectiva, o único errado era eu.

"Não faça isso com você, Tom", diz Paul inesperadamente, da cama de cima, tão baixo que mal o ouvi.

"Fazer o quê?"

"Sentir pena de você mesmo."

"Eu estava pensando em meu pai."

"Eu sei. Tente pensar em outra coisa."

“Que coisa?”

"Eu não sei. Em nós."

"Não compreendo”.

"Nós quatro. Tente ser grato pelo que temos." Ele hesita. "E o ano que vem? Para onde você quer ir?"

"Não sei”.

"Texas?"

"Talvez. Mas Katie deve voltar para cá."

Seus lençóis fazem ruído quando ele se vira. "E se eu lhe disser que posso ir para Chicago?"

"O que você quer dizer?"

"Para um Ph.D. Recebi minha carta um dia depois da sua”. Estou espantado.

"Para onde você pensou que eu estava indo no ano que vem?", ele pergunta.

“Para trabalhar com Pinto em Yale. Por que Chicago?"

"Pinto está se aposentando este ano. E de qualquer forma Chicago é melhor. Melotti ainda está lá”.

Melotti. Um dos outros poucos estudiosos do Hypnerotomachia que eu lembro de meu pai ter mencionado.

“Além disso", acrescenta Paul, "se foi bom o bastante para o seu pai, também será para mim, certo?"

A mesma idéia me ocorreu antes da minha requisição, mas o que significava para mim era, se meu pai pôde entrar, então também posso.

"Suponho que sim."

“Então, o que você acha?”.

"De você ir para Chicago?"

Ele hesita outra vez. Acho que não percebi algo.

"Sobre nós irmos para Chicago."

As tábuas no asso alho estalam no piso superior.

"Por que você não me contou?"

"Não sabia como você iria se sentir a respeito”. ele diz.

"Você tem seguido o mesmo programa que ele fez”.

''Até onde pude."

Não tenho certeza de que poderia suportar seguir as pegadas de meu pai por mais cinco anos. Eu o veria na sombra de Paul mais ainda do que o vejo agora.

"É essa a sua primeira escolha?"

Um longo tempo se passa antes que ele responda.

"Taft e Melotti foram os únicos que sobraram." Estudiosos do Hypnerotomachia, é o que ele quer dizer.

"Eu poderia trabalhar com um não-especialista aqui", diz ele. "Batali ou Todesco."

Mas para um não-especialista escrever uma dissertação sobre o Hypnerotomachia seria a mesma coisa que um surdo escrever sobre música.

"Você deve ir para Chicago", eu digo, tentando colocar entusiasmo em minhas palavras.

"Isso significa que você vai para o Texas?"

''Ainda não resolvi."

"Você sabe, não é necessário decidir sempre por causa dele." "Não é assim."

"Bem”, diz Paul, decidindo não pressionar, "acho que tive­mos o mesmo prazo final."

Os dois envelopes estão onde os deixei, lado a lado sobre a escrivaninha. A escrivaninha, penso, onde Paul começou a desven­dar o Hypnerotomachia. Por um instante imagino meu pai pairando sobre ela, um anjo guardião, guiando Paul em direção à verdade, a cada noite desde o começo. Estranho pensar que eu estava bem ali, muito perto, adormecido quase na maior parte do tempo.

"Descanse", diz Paul, e posso ouvi-lo virar em seu beliche dando um longo suspiro. O constrangimento pelos acontecimen­tos de hoje está voltando.

"O que você vai fazer de manhã?", pergunto, sem saber se ele quer falar sobre isso.

"Tenho que perguntar a Richard sobre aquelas cartas”, diz ele.

"Você quer que eu vá com você?"

"Tenho de ir sozinho."

Não falamos mais nesta noite.

Paul adormeceu rapidamente, a julgar por sua respiração. Eu queria poder fazer o mesmo, mas minha mente está abarrotada demais para que eu possa dormir. Gostaria de adivinhar o que meu pai iria pensar se soubesse que encontramos o diário do por­tuário depois de todos esses anos. Talvez isso fosse aliviar a solidão que eu sempre achei que ele sentia, ao trabalhar tanto em algo que significava tão pouco para poucas pessoas. Acho que as coisas iriam mudar para meu pai se soubesse que seu filho finalmente concorda com ele.

"Por que você chegou tarde?", perguntei-lhe uma noite, depois que ele apareceu no terceiro quarto da minha última par­tida de basquete.

"Sinto muito”, ele disse. "Demorou mais do que eu esperava”.

Ele caminhava à minha frente na volta para o carro, está­vamos indo para casa. Olhei para a parte do cabelo que ele sem­pre esquecia de pentear, aquela que não podia ver no espelho. Estávamos na metade de novembro, mas ele tinha vindo ao jogo com uma jaqueta de primavera, tão absorvido em seu escritório que errara de cabide.

“O que você fez?”, cutuquei. Trabalho?”

Trabalho era o eufemismo que eu usava, evitando o título que me causava tanto embaraço junto a meus companheiros.

"Trabalho não”, disse ele calmamente. "Barganha."

No caminho para casa, ele manteve o velocímetro em cinco ou seis quilômetros por hora, acima do limite de velocidade, como sempre fazia. A pequena desobediência, a maneira pela qual ele se recusava a ser limitado por regras, mas não conseguia nunca quebrá-las, me irri­tava cada vez mais depois que consegui minha carteira de motorista.

"Você jogou bem, acho", disse ele, olhando para mim no banco do passageiro. "Vi você acertar as duas cestas de falta."

"Eu estava muito bem nos dois primeiros tempos do jogo. Depois, disse ao treinador Ames que não queria mais jogar."

O fato de ele não reagir me mostrou que tinha percebido o que eu sentia.

"Você saiu? Por quê?"

"O esperto tira do forte", eu disse, sabendo que seria o que ele iria dizer em seguida. "Mas o mais alto tira do mais baixo”.

Ele pareceu culpar-se depois disso, como se o basquete fosse o grande problema entre nós. Duas semanas depois, quando voltei da escola, a cesta e a bandeja de basquete haviam sido retiradas do jardim e doadas para uma obra de caridade. Minha mãe disse que não sabia direito por que ele tinha feito aquilo. Porque pensava que aliviaria as tensões, foi tudo o que ela conseguiu dizer.

Com isso em mente, tento imaginar qual seria o maior presente que poderia dar ao meu pai. E quando o sono chega, a resposta parece estranhamente clara: minha fé em seus ídolos. Foi o que ele sempre quis - sentir que estávamos unidos por algo permanente, saber que enquanto eu e ele acreditássemos nas mes­mas coisas, nunca ficaríamos separados. Que belo negócio eu fiz, ao assegurar que isso nunca aconteceria. O Hypnerotomachia não era diferente das aulas de piano, do basquete, e da maneira pela qual ele dividia seus cabelos: seu erro. Então, exatamente como ele sabia que iria acontecer, a partir do momento em que perdi a fé naquele livro, ficamos cada vez mais separados, até quando sen­tados ao redor da mesma mesa de jantar. Ele fez tudo o que podia para dar um nó que nunca se desfaria, e eu consegui desfazê-lo.

Esperança, Paul disse uma vez, que foi soprada da caixa de Pandora só depois que todas as calamidades e mágoas escapa­ram, é a melhor e a última de todas as coisas. Sem ela só existe o tempo. E o tempo empurra nossas costas como um centrifugador, nos forçando para fora e para longe, até nos conduzir ao esque­cimento. Essa, eu acho, é a única explicação do que aconteceu a mim e a meu pai, como também aconteceu com Curry e Taft, da mesma maneira que vai acontecer conosco aqui no Dod, por mais inseparáveis que pareçamos ser. É uma lei de movimento, um fato da física que Charlie poderia enunciar, não diferente dos anões brancos e gigantes vermelhos. Como todas as coisas no Universo, estamos destinados, desde o nascimento, a divergir. O tempo é simplesmente o padrão de medida da nossa separação. Se somos partículas em uma distância incomensurável, explodidas a partir de uma única origem, então há uma ciência para a nossa solidão. Somos solitários proporcionalmente aos nossos anos.

Capítulo 16



No verão depois da sexta série, meu pai me enviou para um acampamento, por duas semanas, para ex-escoteiros indisci­plinados, cujo propósito, me dou conta agora, era o de me per­mitir usar de novo o emblema dos escoteiros. Eu tinha perdido esse direito no ano anterior por ter acendido fogos de artifício na tenda de Willy Carlson, e mais especificamente por dizer que achava isso divertido, mesmo depois que me advertiram sobre a constituição frágil e a bexiga solta de Willy. O tempo passou, e meus pais confiavam que as indiscrições haviam sido esquecidas. No tumulto dos doze anos, quando Jake Ferguson, cujo negócio de histórias pornográficas em quadrinhos havia transformado a experiência moralmente obstrutiva do acampamento dos esco­teiros em .uma empresa lucrativa de grandes perspectivas, eu fui rebaixado para uma categoria ainda mais baixa. Catorze dias na costa sul do Lago Erie, achavam meus pais, me trariam de volta à categoria anterior.

Menos do que noventa e seis horas foram suficientes para provar que eles estavam errados. No meio da primeira semana, o chefe de um grupo de escoteiros levou-me de volta para casa e largou-me lá num acesso de ira silenciosa. Eu havia sido desonro­samente mandado embora, dessa vez por ensinar aos companhei­ros de acampamento uma canção imoral. Uma carta de três pági­nas do diretor do acampamento, cheia de adjetivos rebuscados e correcionais, me colocava entre os piores escoteiros reincidentes da maior central de Ohio. Sem saber direito o que seria um reinci­dente, contei a meus pais o que havia feito.

Um grupo de escoteiras juntou-se a nós para um dia de canoagem, cantando uma canção que eu conhecia dos dias em que minhas irmãs freqüentavam acampamentos e usavam emblemas: Faça novos amigos, mas conserve os velhos; um é prata, o outro é ouro. Tendo herdado uma série de alternativas líricas, compartilhei-as com meus colegas homens.

Não faça amigos, e chute os velhos sem pudor. Tudo que quero é prata e ouro com fulgor.

Só essas linhas dificilmente seriam motivo para expulsão, mas Willy Carlson, em uma brilhante façanha de retribuição, deu um chute no conselheiro mais velho do acampamento quando ele se curvou para acender uma fogueira, e depois disse que se comportara assim por influência minha, os versos líricos tinham, como que por mágica, empurrado seus pés no traseiro do conse­lheiro. Depois de poucas horas, todo o mecanismo de justiça dos escoteiros foi posto em ação e nós dois fizemos nossas malas.

Só duas coisas sobraram dessa experiência, além do meu afastamento permanente dos escoteiros. A primeira foi que me tornei amigo de Willy Carlson, cuja bexiga solta nada mais era do que uma mentira que contou aos escoteiros para me afas­tar. Ele era bem amável! E a segunda foi que recebi um severo sermão de minha mãe, cujo motivo não compreendi até quase o final dos meus anos em Princeton. Ela não fazia objeção à primeira linha do poema lírico, apesar do fato de que, na prá­tica, chutar pessoas velhas era o que tinha me posto para for a do acampamento. O que ela não gostou foi da estranha obsessão contida na segunda linha.

"Por que prata e ouro?", disse ela, fazendo-me sentar na pequena sala atrás da livraria, onde mantinha o estoque e os arquivos mortos.

"O que a senhora quer dizer?", perguntei. Havia um calen­dário antiquado na parede, do Columbus Museum of Art, virado no mês de maio, mostrando um quadro de Edward Hopper de uma mulher sentada em sua cama. Eu não podia parar de olhar para ele.

"Por que não fogos de artifícios?", perguntou ela. "Ou fogueiras?"

"Porque isso não dá certo." Lembro de me sentir aborrecido; as respostas pareciam muito óbvias. "Era tudo por causa da rima”.

"Ouça, Tom." Minha mãe colocou a mão em meu queixo e fez com que eu a encarasse. Seu cabelo parecia ouro sob aquela luz, da mesma maneira que o cabelo da mulher no quadro de Hopper. "Isso não é natural. Um menino da sua idade não deve se preocupar com prata e ouro”.

"Não me preocupo. Que importância tem isso?"

"Porque cada desejo tem seu objeto próprio”.

Isso soava como algo que me disseram uma vez na escola dominical. "O que isso quer dizer?"

"Significa que as pessoas passam a vida toda desejando coisas que não deveriam. O mundo as deixa confusas fazendo com que amem e aspirem a coisas que não lhes competem." Ela ajeitou a gola do seu vestido de verão, depois se sentou perto de mim. "Tudo o que é preciso para ser feliz é gostar das coisas certas e nas quantidades certas. Não de dinheiro. Não de livros. De pessoas. Os adultos que não compreendem isso nunca se sentem preenchidos. Não quero que você fique como eles."

Por que significava tanto para ela o propósito correto das minhas paixões, nunca compreendi. Eu apenas concordei de maneira solene, prometi que nunca mais cantaria sobre metais preciosos de novo, e senti que minha mãe tranqüilizou-se.

Mas os metais preciosos nunca foram o problema. O que percebo agora é que minha mãe estava travando uma batalha maior, tentando me proteger de uma coisa pior: tornar-me como meu pai. A obsessão de meu pai pelo Hypnerotomachia era para ela a essência de uma paixão mal orientada, e lutou contra ela até o dia da morte de meu pai. Ela acreditava, acho eu, que o amor dele pelo livro nada mais era do que uma perversão, um desvio indecoroso do seu amor por sua mulher e sua família. Nem coerção, nem persua­são podiam corrigir isso, e suponho que quando minha mãe se deu conta de que havia perdido a batalha para endireitar a vida de meu pai é que ela direcionou suas armas para mim.

Se me mantive fiel ou não à minha promessa, tenho receio de dizer. A obstinação dos meninos em seu modo infantil deve ser um assombro para as mulheres, que aprendem mais depressa do que os anjos a não se comportar mal e causar problemas.

Ao longo de minha infância houve um monopólio de erros em minha casa, e eu fui seu Rockefeller. Nunca imaginei a magnitude do erro contra o qual minha mãe me advertia, até que tive a infelicidade de incorrer nele. Na época, no entanto, foi Katie, e não minha família, quem teve de sofrer por isso.

Chegou janeiro, e o primeiro enigma de Colonna deu lugar a um outro, depois a um terceiro. Paul sabia onde procurá-los, tendo descoberto um padrão no Hypnerotomachia: seguindo um ciclo regular, os capítulos cresciam em extensão de cinco ou dez pági­nas, para vinte, trinta, ou até quarenta. Os capítulos curtos vinham um após o outro, três ou quatro por vez, enquanto os mais longos eram mais isolados. Quando diagramados, os longos períodos de pouca intensidade eram interrompidos por aumentos significa­tivos no tamanho do capítulo, criando um perfil visual que nós dois chegamos a conceber como o pulso do Hypnerotomachia. O padrão continuou até o término da primeira metade do livro, ponto no qual uma seqüência estranha e confusa começou, nenhum capítulo excedia onze páginas.

Paul rapidamente deu sentido a isso, utilizando nosso sucesso com Moisés e seus cornos: todo aumento de tamanho de capítulos isolados proporcionava um enigma; a solução dos enig­mas, seu criptograma, era então aplicado à seqüência de capítulos curtos que se seguiam, produzindo a parte seguinte da mensagem de Colonna. A segunda metade do livro, Paul deduziu, deve ser recheio, do mesmo modo que os capítulos de abertura da primeira metade pareciam ser: uma distração para manter a impressão de narrativa, sem o que seria apenas uma história fragmentada.

Dividimos o trabalho entre nós. Paul procurava os enig­mas nos capítulos longos, deixando cada um deles para que eu decifrasse. O primeiro que tentei resolver foi este: Qual é a menor harmonia de uma grande vitória?

"Isso me faz pensar em Pitágoras", disse Katie quando lhe contei sobre o enigma por cima de um bolo inglês com chocolate quente no Small World Coffee. "Tudo para Pitágoras eram har­monias. Astronomia, virtude, matemática..”

"Penso que está relacionado com combate", eu contrapus, depois de ter passado algum tempo em Firestone procurando textos da Renascença sobre manobras. Leonardo, em uma carta ao Duque de Milão, disse que podia construir carros de batalha impenetráveis, como tanques da Renascença, junto com mortei­ros transportáveis e grandes catapultas para usar em cercos. A filosofia e a tecnologia estavam se fundindo: havia uma matemá­tica para a vitória, um conjunto de proporções para aperfeiçoar a máquina de guerra. Da matemática para a música era apenas um pequeno passo.

Na manhã seguinte, Katie acordou-me às 7h30 para ir cor­rer antes de sua aula das 9 horas.

"Combate não faz sentido", disse ela, começando a anali­sar o enigma como só uma especialista em filosofia seria capaz. "Existem duas partes nessa questão: menor harmonia e grande vitória. A grande vitória pode não significar nada. Você deve se concentrar na parte mais clara. A menor harmonia tem pequeno número de significados concretos."

Eu resmunguei quando passamos a estação de trem de Dinky no nosso caminho para a parte oeste do campus, inve­jando os passageiros dispersos que esperavam pelo trem das 7h43.

Correr e pensar não eram coisas naturais a se fazer ao nascer do sol) e ela sabia que a confusão mental em que me encontrava não se desfaria até o meio-dia. Ela estava tirando vantagem) punindo-me por não levar Pitágoras a sério.

"Então o que você sugere?”, perguntei.

Ela nem parecia estar respirando com dificuldade. "Vamos parar em Firestone na volta. Vou lhe mostrar onde acho que você deve investigar”.

E as coisas continuaram assim por duas semanas) acor­dando cedo para fazer exercícios físicos e resolver problemas difíceis) contando para Katie minhas idéias ainda imaturas sobre Colonna, de modo que ela precisasse parar e me escutar) depois me forçando a correr bem depressa para que ela tivesse menos tempo para me dizer de que maneira eu estava errado. Estávamos passando juntos os finais de muitas noites e os começos de muitas manhãs, e eu achava que, racional como Katie era, finalmente iria achar que dormir no Dod seria mais eficiente do que enfrentar a volta para o Holder. Todas as manhãs, ao vê-la em suas roupas esportivas, eu pensava em uma nova maneira de estender o con­vite, mas ela sempre se fazia de desentendida. Gil me contou que o antigo namorado de Katie, o jogador de hóquei de um dos meus seminários, caçoou dela desde o começo, não exercendo pressão sobre ela nas poucas ocasiões em que esteve embriaga da, de modo que se enternecesse com gratidão quando sóbria. Ela levou tanto tempo para perceber o tipo de manipulação que ele usava, que acabou trazendo a impressão dessa relação para o primeiro mês do nosso relacionamento.

"O que devo fazer?”, perguntei uma noite depois que Katie saiu, quando a frustração era demasiada. Eu estava conseguindo um leve beijo no rosto depois de cada corrida, o que, considerando tudo, mal pagava meus sacrifícios; e agora que eu estava passando cada vez mais tempo com o Hypnerotomachia, e tendo apenas de cinco a seis horas de sono por noite, um tipo inteiramente novo de obrigação estava surgindo. Tantalus e suas uvas não me satis­faziam: quando eu queria Katie, tudo que conseguia era Colonna; quando tentava me concentrar em Colonna) tudo em que conse­guia pensar era em dormir; e quando, por fim adormecia, uma pancada na porta me despertava e era hora de uma outra corrida com Katie. A comédia de estar constantemente atrasado para a minha própria vida me incomodava. Eu merecia coisa melhor.

Por uma vez, no entanto, Gil e Charlie estavam de acordo: "Seja paciente", disseram. "Ela vale a pena."

E, como sempre, eles tinham razão. Uma noite' depois da nossa quinta semana juntos, Katie ofuscou a todos nós. Voltando de um seminário de filosofia, ela parou no Dod com uma idéia.

"Ouçam isto", disse ela, tirando uma cópia da Utopia de Thomas More de sua bolsa e lendo um trecho do livro.

Os habitantes da Utopia têm dois jogos parecidos com o xadrez. O primeiro é um tipo de torneio aritmético, no qual certos números "capturam" outros. O segundo é uma bata­lha de arremesso entre virtudes e vícios, que ilustra muito engenhosamente como os vícios tendem a conflitar entre si, mas se aliam contra as virtudes. Isso mostra o que, basica­mente, determina a vitória de um lado ou de outro.

Ela me fez segurar o livro, esperando que eu lesse de novo. Dei uma olhada na capa de trás. "Foi escrito em 1516", eu disse, "menos de vinte anos depois do Hypnerotomachia." O espaço de tempo era adequado.

"Uma batalha de arremesso entre virtudes e vícios': ela repe­tiu, "mostrando o que determina a vitória de um lado ou de outro”.

E algo começou a se agitar em mim achando que ela podia estar certa.

Lana McKnight costumava obedecer a uma regra nos dias de encontro. Nunca misturar livros e cama. No espectro da excita­ção, sexo e pensamento estavam em extremidades opostas, ambos para serem desfrutados, mas nunca ao mesmo tempo. Sempre me deixava perplexo como uma garota esperta podia se tornar tão completa e subitamente estúpida no escuro, agitando os braços em seu négligé que imitava leopardo, como uma mulher das caver­nas em quem eu tivesse batido com uma clava, vociferando coisas que teriam horrorizado até o bando de lobos que a criou. Nunca ousei dizer a Lana que se ela gemesse menos isso significaria mais, mas desde a primeira noite senti que coisa maravilhosa seria se minha mente e meu corpo pudessem ser estimulados ao mesmo tempo. Provavelmente percebi essa possibilidade com Katie desde o começo, depois de todas as manhãs que juntos passamos exerci­tando nossos músculos. Mas foi só naquela noite que aconteceu: quando desenvolvemos as implicações da sua descoberta, o último resquício do seu antigo jogador de hóquei finalmente sumiu, se apagou, deixando-nos livres para começar de novo.

O que lembro com maior clareza sobre aquela noite foi que Paul tinha ido dormir em Ivy, e que as luzes pareciam seguir Katie o tempo todo. Nós as mantivemos acesas enquanto líamos Sir Thomas More, tentando descobrir a que jogo ele se referia, no qual as grandes vitórias eram possíveis quando as virtudes estavam em harmonia. Elas continuaram acesas quando descobrimos que um dos jogos que More mencionou, chamado o Jogo dos Filósofos, ou Rithmomachia, era precisamente o tipo que Colonna teria pre­ferido, mais desafiador que qualquer outro jogado pelos homens medievais ou da Renascença. Nós as deixamos acesas quando ela me beijou dizendo que, no fim das contas, eu concordava que ela estava certa, porque a Rithmomachia, como verificamos, só podia ser vencida pela criação de uma harmonia de números, a mais per­feita das quais produzia um raro resultado chamado grande vitória. E nós as deixamos acesas no momento em que ela me beijou de novo, quando admiti que minhas outras idéias deviam estar erradas e que eu devia tê-la escutado desde o começo. Percebi, finalmente, o equívoco que persistiu desde a manhã de nossa primeira corrida: enquanto eu me esforçava para ficar ao lado dela, ela arremetia para ficar sempre um passo adiante. Ela estava tentando provar que não ficava intimidada pelos seniores, que merecia ser levada a sério - e nunca lhe ocorreu, até aquela noite, que havia conseguido.

Meu colchão estava apinhado de livros quando fomos nos deitar, sem nem mesmo fazer de conta que queríamos ler algo mais. É provável que o quarto estivesse muito aquecido para o tipo de malha que ela estava usando. E é provável que o quarto ainda continuaria demasiado aquecido para a malha que ela ves­tia mesmo se o ar-condicionado estivesse ligado e houvesse neve caindo como no fim de semana da Páscoa. Ela usava uma cami­seta debaixo da malha e um sutiã preto sob a camiseta, mas foi observando Katie se despir e vendo a desordem que isso provocou em seus cabelos, com fios flutuando numa auréola de eletricidade estática, que me deu o sentimento que Tantalus nunca alcançara completamente: de que um sensacional futuro havia finalmente se superposto a um presente intenso e auspicioso, acionando a chave que completa o circuito do tempo.

Quando chegou a minha vez de tirar a roupa, de compar­tilhar com Katie os destroços da minha perna esquerda, cicatrizes e tudo mais, eu não hesitei; e quando elas as viu, também não hesitou. Se tivéssemos passado aquelas horas no escuro, eu nunca teria chegado a ter certeza de nada. Mas nunca ficamos no escuro. Rolamos, um sobre o outro, sobre Sir Thomas More e as páginas de sua Utopia, iniciando um novo relacionamento, e as luzes fica­ram acesas o tempo todo.

O primeiro sinal de que eu não compreendia as forças que atuavam na minha vida veio na semana seguinte. Paul e eu pas­samos boa parte do domingo e da terça-feira debatendo o signi­ficado do enigma mais recente: Quantos braços desde o seu pé até o horizonte?

"Penso que tem a ver com geometria", disse Paul.

"Euclides?"

Mas ele sacudiu a cabeça. "Medida da Terra. Eratóstenes calculou aproximadamente a circunferência da Terra medindo os diferentes ângulos das sombras lança das em Siena e Alexandria ao meio-dia durante o solstício de verão. Depois ele usou os ângulos..."

Percebi só mais tarde, por meio de sua explicação, que ele estava usando um sentido etimológico para a palavra geometria -literalmente, como ele disse, "medida da Terra”.

"Então, conhecendo a distância entre as duas cidades, ele podia medir por triangulação a curvatura da Terra."

"O que isso tem a ver com o enigma?", eu quis saber.

"Francesco está perguntando qual é a distância entre você e o horizonte. Calcule quão distante ele está de qualquer ponto dado, no mundo, até a linha onde a Terra se curva e você obterá a resposta. Ou então apenas procure por ela em qualquer livro de física. Ela é provavelmente uma constante”.

Ele disse isso como se a resposta fosse algo que já se soubesse de antemão, mas eu suspeitava que fosse de outra maneira.

"Por que Colonna perguntaria essa distância em braços?", eu indaguei.

Paul inclinou-se e apagou os braços sobre a minha cópia, substituindo-o por algo em italiano. "Isso deveria provavelmente ser braccia”, ele disse. "É a mesma palavra, mas braccia era a uni­dade de medida florentina. Um braccio é mais ou menos o com­primento de um braço."

Pela primeira vez, eu estava dormindo menos do que ele, a súbita intensidade de minha vida me espicaçando para que eu continuasse a forçar minha sorte, para seguir misturando meus drinques, porque esse coquetel de Katie e Francesco Colonna parecia ser exatamente o que o médico prescrevera. Tomei isso como um sinal, o fato de que meu retorno ao Hypnerotomachia havia trazido uma nova estrutura ao mundo em que eu vivia. Rapidamente comecei a cair na armadilha de meu pai, aquela sobre a qual minha mãe havia me alertado.

Na quarta-feira de manhã, quando mencionei a Katie que havia sonhado com meu pai, ela fez algo que nunca havia feito antes, enquanto corríamos: ela parou.

"Tom, não quero continuar a falar sobre isso”, ela disse.

“Sobre o que?”

''A tese de Paul. Vamos falar de outra coisa”.

"Eu estava falando sobre meu pai."

Eu havia me acostumado, nas conversas com Paul, a invo­car o nome de meu pai em qualquer situação, esperando que isso diminuísse qualquer crítica.

"O seu pai trabalhou no livro que Paul está estudando", disse ela. "É a mesma coisa."

Eu me enganei ao interpretar o sentimento por trás de suas palavras como medo: medo de que seria incapaz de resolver um outro enigma da maneira que havia solucionado o primeiro, e de que meu interesse por ela pudesse enfraquecer.

"Ótimo", eu disse, pensando que assim a estava protegendo daquilo tudo. "Vamos falar sobre outra coisa”.

E assim começou um período de muitas semanas agradá­veis, construído sobre um equívoco tão completo quanto aquele com o qual começamos. Do primeiro mês em que começamos a namorar até a noite em que Katie dormiu no Dod, ela assumiu uma postura quando estava comigo, tentando criar algo que acreditava ser o que eu queria; no segundo mês eu lhe devolvi a gentileza evi­tando mencionar o Hypnerotomachia na sua frente, não porque a importância dele tivesse diminuído em minha vida, mas porque eu achava que os enigmas de Colonna a deixavam apreensiva.

Se soubesse a verdade, Katie teria motivos para preocupar-se. O Hypnerotomachia estava lentamente começando a ameaçar os meus outros pensamentos e interesses, deixando-os desfocados. O equilíbrio que eu pensava ter atingido entre a tese de Paul e a minha - a valsa entre Mary Shelley e Francesco Colonna, que eu imaginava mais distintamente quanto mais tempo passava com Katie - estava se transformando em uma batalha, que Colonna gradualmente venceu.

De forma tranqüila, antes que Katie e eu nos déssemos conta disso, trilhas haviam se formado em cada canto de nossa experiência em comum. Percorríamos os mesmos caminhos todas as manhãs e parávamos nos mesmos cafés antes da aula; eu a fazia entrar às escondidas no meu clube-restaurante quando os meus convites terminaram. Nas noites de terça dançávamos com Charlie no Cloister Inn; sábado à noite jogávamos bilhar com Gil em Ivy; e nas noites de sexta, quando os clubes na Prospect ficavam fecha­dos, íamos ver os amigos em peças de Shakespeare ou concertos musicais ou shows no campus. A aventura dos nossos primeiros dias juntos pouco a pouco floresceu em algo mais: um sentimento que eu nunca tinha tido com Lana ou qualquer de suas predeces­soras, que só posso comparar com a sensação de voltar para casa, de encontrar um equilíbrio que não necessita de ajustes, como se tudo em minha vida estivesse esperando por ela.

Na primeira noite em que Katie percebeu que eu não con­seguia dormir, ela me contou uma história de seu autor favorito, e eu segui George, o Curioso, até o final da Terra, onde o peso em minhas pálpebras me derrubou. Depois disso, houve muitas noi­tes em que tossi e me revirei, e Katie encontrou uma solução para cada uma delas. Episódios de M*A*S*H tarde da noite; longas lei­turas de Camus; programas de rádio que ela costumava ouvir em casa e que agora eram transmitidos em outros estados. Às vezes deixávamos as janelas abertas, para ouvir a chuva no final de feve­reiro, ou a conversa de calouros embriagados. Havíamos até inven­tado um jogo rítmico para as noites vazias, algo que Francesco Colonna podia não achar tão edificante quanto o Rithmomachia, mas que desfrutávamos do mesmo modo.

"Existiu um homem chamado Camus”, eu dizia, guiando-a.

Quando Katie sorria de noite, ela parecia o gato Cheshire (O gato de Alice no País das Maravilhas) no escuro.

"Que fez U. Algiers ficar sem luz", ela respondia.

"Ele tem muito potencial”.

"Mas não era existencial."

"O que deixou o velho Jean-Paul Sartre mal."

Mas apesar de todas as maneiras que Katie encontrou para me fazer dormir, o Hypnerotomachia ainda me mantinha tempo demais acordado. Eu descobri qual era a menor harmonia de uma grande vitória: no Rithmomachia, onde a meta consiste em esta­belecer padrões de números que contenham harmonias aritméti­cas, geométricas ou musicais, apenas três seqüências produzem as três harmonias ao mesmo tempo - o requisito para uma grande vitória. A menor dessas, a que Colonna desejava, era a seqüência 3-4-6-9.

Paul rapidamente pegou os números e fez um criptograma com eles. Ele leu a terceira letra, depois a quarta em seqüência, seguida pela sexta e a nona, dos capítulos apropriados; e depois de uma hora obtivemos uma nova mensagem de Colonna:

Começo minha história com uma confissão. Para manter esse segredo muitos homens morreram. Alguns pereceram na construção de minha cripta, a qual, imaginada por Bramante e executada pelo meu irmão romano Terragni, é uma invenção inigualável para seu propósito, impenetrável a todas as coisas, mas principalmente à água. Essa constru­ção fez muitas vítimas, mesmo entre os homens mais expe­rimentados. Três morreram no deslocamento de grandes pedras, dois na queda de árvores, cinco no próprio processo de construção. E outros cuja morte não menciono, porque morreram vergonhosamente e serão esquecidos.

Aqui vou tornar conhecida a natureza do inimigo com o qual me defronto, cujo poder crescente jaz no centro de minhas ações. Leitor, você se perguntará por que coloquei a data de 1467 neste livro, cerca de trinta anos antes de eu ter escrito estas palavras. Foi por esta razão: naquele ano começou a guerra que ainda estamos lutando, e que esta­mos agora perdendo. Três anos antes Sua Santidade, Paulo 11, despediu os abreviadores da corte, deixando claras suas intenções para com minha confraria. Embora os membros da geração de meu tio fossem homens poderosos, com muita influência, os irmãos expulsos congregaram-se na Academia Romana, sustentada pelo bom Pomponio Leto. Paulo viu que o nosso número persistia e sua fúria aumentou. Naquele ano, 1467, ele aniquilou a Academia. Para que todos conhecessem a força de sua determinação, aprisionou Pomponio Leto e conseguiu acusá-lo como sodomita. Outros do nosso grupo foram torturados. Um, pelo menos, morreria.

Agora somos desafiados por um velho inimigo, que subita­mente renasceu. Esse novo espírito cresce em poder, e encon­tra uma voz mais poderosa, não me deixando escolha senão construir, com a ajuda de amigos mais sábios do que eu, esse invento cujo segredo escondo aqui. Nem mesmo o sacer­dote, por mais filósofo que seja, está à altura dele.

Continue, leitor, e lhe contarei mais.

"Os abreviadores da corte eram os humanistas", explicou Paul. "O papa achava que o humanismo provocava corrupção moral. Ele nem queria que as crianças ouvissem as obras dos antigos poetas. O Papa Paulo transformou Leto em um exemplo. Por alguma razão Francesco tomou isso como uma declaração de guerra."

As palavras de Colonna permaneceram comigo naquela noite, e em cada noite seguinte. Pela primeira vez deixei de correr com Katie pela manhã, cansado demais para sair da cama. Algo me dizia que Paul estava enganado a respeito do enigma - Quantos braços desde o seu pé até o horizonte? - e que Eratóstenes e a geo­metria não eram a solução. Charlie confirmou que a distância até o horizonte depende do peso do observador; e mesmo que pudés­semos encontrar uma única resposta e calculá-la em braccia, me dei conta que a resposta seria enorme, demasiado grande para ser útil como criptograma.

“Quando Eratóstenes fez esse cálculo?”, perguntei.

"Por volta de 200 a.C."

Isso confirmou o que eu pensava.

“Acho que você está errado”, eu disse. "Todos os enigmas até agora estão relacionados com o conhecimento que havia na Renascença, com as descobertas na Renascenya. Ele está nos tes­tando sobre o conhecimento que os humanistas teriam em torno de 1400."

"Moisés e cornuta têm a ver coma lingüística': disse Paul, tentando ver se a idéia servia. "Correção de traduções malfeitas, como Valia fez com a Constituição de Constantino."

"E o enigma de Rithmomachia se relaciona com a mate­mática': continuei. "Então Colonna não usaria matemática de novo. Acho que ele utiliza uma disciplina diferente a cada vez."

­Foi só quando Paul me olhou, surpreso pela clareza do meu raciocínio, que eu percebi como o meu papel havia mudado. Éramos iguais agora, parceiros no empreendimento.

Começamos a nos encontrar em Ivy todas as noites, como naqueles dias em que Paul mantinha a sala do presidente mais arrumada, esperando a visita inesperada de Gil. Eu jantava no andar de cima com Gil e Katie, que iria começar o procedimento de admissão por debate em poucas semanas, e depois descia para juntar-me a. Paul e Francesco Colonna. Eu achava que não havia problema em deixá-la sozinha, porque ela estava se esforçando para ser admitida no clube. Ocupada com os rituais, ela parecia não ligar muito para os meus sumiços.

Mas na noite depois que perdi minha terceira corrida mati­nal, tudo mudou. A meu ver, a solução do enigma estava muito próxima, e foi então que, por puro acidente, ela descobriu onde eu estava passando meu tempo.

"Isso é para você", disse ela, entrando em nosso quarto no Dod.

Gil havia deixado a porta destranca da outra vez, e Katie não batia mais quando achava que eu estava sozinho.

Era uma vasilha de sopa que comprara em uma rotisseria local. Ela achava que eu tinha estado muito ocupado com a minha tese todo aquele tempo.

"O que você está fazendo?”, perguntou. "Mais Frankenstein?"

Depois ela viu os livros espalhados ao meu redor, cada um trazendo no título uma referência à Renascença.

Nunca pensei que fosse possível mentir sem nem perceber. Eu a tinha enganado durante semanas sob uma série de pretex­tos - Mary Shelley; insônia; as pressões que ambos estávamos enfrentando, o que dificultava passarmos mais tempo juntos -, e, em conseqüência, isso me manteve afastado, levando-me para longe da verdade tão lentamente que a distância a cada dia não parecia maior do que a do dia anterior. Katie sabia que eu estava trabalhando na tese de Paul, era o que eu achava; ela só não queria ouvir falar a respeito. Este era, para mim, o acordo a que tínhamos chegado sem mesmo ter de expressá-lo em palavras.

A conversa que se seguiu foi toda feita de silêncios, que se entremeavam com a maneira pela qual ela me olhava e o jeito com que eu tentava sustentar seu olhar sobre mim. Finalmente, Katie colocou a vasilha de sopa sobre o aparador e abotoou seu casaco. Olhou ao redor do quarto, como que para lembrar-se dos detalhes e dos locais dos objetos, depois saiu e fechou a porta.

Eu ia lhe telefonar naquela mesma noite - pois sabia que era o que ela esperava que eu fizesse, quando voltou sozinha ao seu quarto e esperou do lado do telefone, como suas colegas de quarto me contaram depois -, só que algo me impediu. Aquele livro era uma amante fantástica, atraindo-me nos momentos certos. Assim que Katie foi embora, a solução do enigma de Colonna se tornou evidente; e então como o cheiro de perfume e os seios de uma mulher muito sedutora, ela me fez perder tudo o mais de vista.

O horizonte em uma pintura era a solução: o ponto de convergência em um sistema de perspectiva. O enigma não era sobre matemática e sim sobre arte. Isso se ajustava ao perfil dos outros enigmas, apoiando-se sobre uma disciplina pecu­liar à Renascença, desenvolvida pelos mesmos humanistas que Colonna parecia estar defendendo. A medida que necessitávamos era a distância, em braccia, entre o primeiro plano da pintura, onde ficavam as figuras, e a linha teórica do horizonte, onde a Terra encontrava o céu. E lembrando a preferência de Colonna por Alberti, na arquitetura, quando Paul usou De re aedificatoria para decifrar o primeiro enigma, foi para Alberti que me voltei primeiro. Na superfície que eu tinha a intenção de pintar, Alberti escreveu no tratado que encontrei no meio dos livros de Paul,

decidi o tamanho que as figuras deveriam ter no primeiro plano. Dividi a altura do homem em três partes, que seriam proporcio­nais à medida comumente chamada de um "braccio"; porque, como pode ser visto a partir da relação de seus membros, três "braccia" é mais ou menos a altura média do corpo de um homem. A posição apropriada para o ponto central não é mais alta, a partir da linha de base, do que a altura do homem a ser representado na pintura. Então desenhei uma linha através do ponto central, e essa linha é um limite ou uma divisa para mim, que nenhuma quantidade excede. É por isso que os homens que ficam mais distantes são muito menores do que os que ficam mais próximos.

A linha central de Alberti, como a ilustração mostrava, era o horizonte. De acordo com o seu sistema, ela estava colocada na mesma altura que o homem em pé desenhado no primeiro plano, que por sua vez tinha três braccia de altura. A solução do enigma - o número de braccia desde o pé do homem até o horizonte - era apenas este: três.

Paul levou só meia hora para descobrir como aplicar isso. A primeira letra de cada terceira palavra nos capítulos seguintes, quando enfileiradas, revelaram o trecho seguinte de Colonna.

Agora, leitor, vou lhe revelar a natureza da composição desta obra. Com a ajuda de meus irmãos, estudei os textos cripto­grafados de livros dos árabes, judeus e dos antigos. Aprendi dos cabalistas a prática chamada gematria, de acordo com a qual, quando está escrito no Gênese que Abraão trouxe 318 servos para ajudar Lot, vemos que o número 318 sig­nifica apenas o servo Eliezer de Abraão, porque ele é a soma das letras hebraicas do nome de Eliezer. Aprendi as práticas dos gregos, cujos deuses falam por meio de enig­mas, e cujos generais, conforme o Mythmaker descreve em sua História, ocultavam seus significados astuciosamente, como quando Histiaeus tatuou uma mensagem no escalpo do seu escravo, de modo que Aristágoras pudesse raspar a cabeça do homem e lê-la.

Vou lhe revelar agora os nomes daqueles homens estu­diosos cuja sabedoria criou os meus enigmas. Pomponio Leto, mestre da Academia Romana e aluno de Valla, velho amigo de minha família, instruiu-me na importância das línguas e da tradução, onde meus próprios olhos e ouvi­dos fracassavam. Na arte e na harmonia dos números,1ui guiado pelo francês Jacques Lefivre d'Etaples, admirador de Roger Bacon e Boethius, que conhecia todos os métodos

de numeração que o meu próprio intelecto não podia elu­cidar. O grande Alberti, que por sua vez aprendeu sua arte dos mestres Masaccio e Brunelleschi (possa a genialidade deles ser para sempre lembrada), instruiu-me faz muito tempo na ciência dos horizontes e pinturas; eu o abençôo agora e sempre. O conhecimento dos escritos sagrados de Hermes Trismegistus, primeiro profeta do Egito, devo ao sábio Ficino, mestre das línguas e das filosofias, que é sem igual entre os seguidores de Platão. Finalmente é a Andrea Alpago, discípulo do venerável Ibn al-Nafis, que sou deve­dor por assuntos ainda não revelados; e possa essa contri­buição ser vista como sendo mais favorável do que todo o resto, porque é no estudo do homem em si mesmo, dentro do qual todos os outros estudos encontram sua origem, que ele mais de perto contempla a perfeição.

Esses, leitor, são os meus mais sábios amigos, com os quais aprendi o que não sabia, o conhecimento que em tempos anteriores eram estranhos a todas as pessoas. Um por um eles concordaram com o meu singular pedido: cada homem, sem o conhecimento dos outros, inventou um enigma para o qual só eu e ele tínhamos a solução, e que apenas um outro amante da sabedoria poderia solucionar. Esses enigmas, por sua vez, eu os coloquei dentro do meu texto sob forma de fragmentos, de acordo com um padrão que não revelei a ninguém; e cuja solução, unicamente, pode reproduzir minhas verdadeiras palavras.

Tudo isso fiz, leitor, para proteger meu segredo, mas tam­bém para transmiti-lo a você, para que descobrisse o que escrevi. Solucione mais dois enigmas e eu começarei a reve­lar a natureza de minha cripta.

Katie não me acordou na manhã seguinte para ir correr. No resto da semana, de fato, falei com suas colegas de quarto e com a secretária eletrônica, mas nunca com ela mesma. Obcecado pelo progresso que estava fazendo com Paul, não percebi como o cenário de minha vida estava se desgastando. As corridas e os cafés foram abandonados à medida que a distância entre nós crescia.

Katie já não comia mais comigo no Cloister, mas mal percebi, porque durantes semanas eu mesmo mal tive tempo de ir até lá: Paul e eu andávamos feito ratos pelos túneis entre o Dod e Ivy, evitando a luz do dia, ignorando os sons dos debates acima de nossas cabeças, comprando café e sanduíches prontos no Wa Wa, que ficava aberto a noite inteira no campus, de maneira que pudéssemos trabalhar e comer sem horário fixo.

Durante todo aquele tempo, Katie estava separada de mim apenas por um andar, tentando não roer suas unhas, enquanto transitava de grupinho em grupinho, buscando o equilíbrio cor­reto entre positividade e complacência, para que os alunos do ter­ceiro ano a olhassem de maneira favorável. Desde o começo eu tinha chegado à conclusão de que ela não queria minha interferên­cia em sua vida naquele momento, o que era uma outra desculpa para passar longos dias e noites até bem tarde com Paul. Que ela apreciasse um pouco de convivência, um rosto amigo para olhar à noite, um companheiro para correr nas manhãs que se torna­vam mais cinzentas e frias - que ela esperasse meu apoio, ainda mais agora que havia chegado à sua primeira encruzilhada em Princeton - era algo que eu estava ocupado demais para consi­derar. Nunca imaginei que os debates pudessem ser uma provação para ela, uma experiência que testava sua tenacidade muito mais do que seu encanto. Eu era um estranho para ela; não percebi o quanto ela estava sofrendo naquele momento.

O clube a aceitou, Gil me contou na semana seguinte. Ele estava enfrentando uma noite difícil, pois tinha que dar as notícias, boas ou más, para cada candidato. Parker Hassett atirou algumas pedras no caminho de Katie, encontrando nela um objeto especial para o seu ódio, provavelmente porque sabia que ela era uma das favoritas de Gil; mas mesmo Parker teve de ceder no final. A ceri­mônia de admissão dos novos membros era na semana seguinte, depois das iniciações, e o baile anual de Ivy estava previsto para o fim de semana da Páscoa. Gil anunciou os eventos tão cautelo­samente que percebi que estava querendo me dizer algo. Aquelas eram minhas chances de ajeitar as coisas com Katie. Aquele era o calendário da minha reabilitação.

Neste caso, então, eu era um namorado tão ruim quanto havia sido um mau escoteiro. O amor se desviava do seu objeto próprio, havia descoberto um novo. Nas semanas seguintes eu estive com Gil cada vez menos, e não encontrei mais com Katie. Soube que ela havia se interessado por um estudante do terceiro ano que também freqüentava Ivy, uma nova versão do seu antigo jogador de hóquei, um homem com um boné amarelo. Na época Paul havia encontrado um novo enigma, e começávamos a nos perguntar que segredo estava escondido na cripta de Colonna. Um antigo mantra, adormecido por muito tempo, levantou-se de sua inatividade e preparou-se para um outro período ativo.

Não faça amigos, e chute os velhos com furor. Tudo que quero é prata e ouro com fulgor.

2014-07-19 18:44
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