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2e564206. jpg Align=bottom width=11 height=6 border=0> harry potter - 16

Espécies de Dragões do Reino Unido e Irlanda, ^ Do Ovo ao Inferno, Um Guia
para os Guardas de Dragões.
— O Hagrid sempre sonhou ter um dragão. Disse-mo ele no primeiro dia em que nos
conhecemos — confessou Harry.
— Mas é contra todas as nossas leis —, lembrou o Ron.
— A criação de dragões foi proibida pela Convenção de Warlock em 1709, todos sabem
disso. Seria totalmente impossível passarmos despercebidos aos Muggles se tivéssemos
dragões no jardim. Além disso não é possível domesticar dragões, é perigoso. Devias ver as
queimaduras que o Charlie fez a lidar com alguns dragões selvagens na Roménia.
— Mas não há dragões selvagens no Reino Unido, pois não? — perguntou Harry.
— Claro que há —, afirmou o Ron, — os vulgares verdes galeses e os pretos das Ilhas
Hébridas. O Ministério da Magia tem um trabalhão a abafar a existência deles, podes crer.
Temos de arranjar feitiços para conseguir que os Muggles que lhes puseram a vista em cima se
esqueçam por completo.
— Então o que estará o Hagrid a fazer? — perguntou Hermione.
Quando bateram à porta da cabana do guarda dos campos, uma hora mais tarde, ficaram
espantados ao verificar que todas as cortinas estavam fechadas. Hagrid gritou: — Quem é? —
antes de os mandar entrar e, em seguida, fechou devagarinho a portasem fazer ruído.
Estava um calor sufocante lá dentro. Apesar de estar um dia quente, na lareira crepitava
um fogo esplendoroso. Hagrid fez-lhes chá e ofereceu-lhes sandes de doninha que eles
naturalmente recusaram.
— ‘Tão, queriam fazer-me uma pergunta?
— Sim —, disse o Harry. Não valia a pena estar com rodeios.
— Queríamos saber se nos podias dizer o que é que está a guardar a pedra filosofal além do
Fluffy.
Hagrid olhou-o de sobrancelhas cerradas.
— ‘Tá claro que não posso — disse. — Primeiro, nem eu sei. Segundo, vocês já ‘tão a saber
de mais e por isso não vos dizia mesmo que soubesse. Aquela pedra ‘tú aqui por um bom
motivo. Quase foi roubada de Gringotts; calculo que saibam disso? Fico parvo com’é que
descobriram quem era o Fluffy.
— Vá lá, Hagrid, tu podes não querer dizer-nos mas não tentes convencer-nos de que não
sabes. Tu estás a par de tudo o que se passa por aqui —, disse Hermione com uma voz
sedutora. — Nós só gostaríamos de saber em quem terá o Dumbledore confiado tanto para o
ajudar nisto, além de ti.
O peito de Hagrid inchou com estas últimas palavras. Harry e Ron olharam espantados para
Hermione.
— Eu suponho que não fará mal dizer-vos isto... eu... ele pediu-me o Fluffy emprestado e
depois alguns dos professores fizeram uns feitiços... o professor Sprout, o professor Flitwick, a
professora McGonagall —, Hagrid contava-os pelos dedos, — o professor Quirrell e o próprio
Dumbledore, claro. Ah, esquecia-me de um, o professor Snape.
— Snape?
— Sim, ‘inda não sabiam isto, vocês. ‘Tão a ver, o Snape ajudou a proteger a pedra. Não ia
depois roubá-la...
Harry tinha a certeza de que o Ron e a Hermione estavam a pensar o mesmo que ele.
Se o Snape tivesse feito parte desse grupo, ter-lhe-ia sido fácil descobrir como os outros
professores haviam guardado a pedra. Ele parecia saber tudo menos o feitiço do Quirrell e
como passar pelo Fluffy.
— Tu és o único que sabe como é possível passar pelo Fluffy não és? — perguntou Harry
cheio de curiosidade. — E nunca dirias a ninguém, pois não, a nenhum dos professores?
— A ninguém a não ser ao Dumbledore —, disse o Hagrid cheio de orgulho.
— Bem, isso já é qualquer coisa — murmurou Harry aos outros. — Hagrid, não se pode
abrir uma janela, estou a sufocar?
— Não posso, Harry, desculpa. — Harry reparou no modo como ele olhava para o fogo.
Seguiu-lhe o olhar.
— O que é aquilo, Hagrid?
Mas ele já descobrira o que era. Bem no meio do lume, por debaixo da chaleira, estava um
enorme ovo negro.
— Ah! — disse o Hagrid, coçando nervosamente a barba. — Aquilo é... er...
— Onde o arranjaste, Hagrid? — perguntou Ron, inclinando -se para o lume para o ver mais
de perto. — Deve ter-te custado uma fortuna.
— Ganhei-o — disse Hagrid. — A noite passada fui à vila tomar umas bebidas e comecei a
jogar às cartas c’um desconhecido. Até acho qu’ele ficou satisfeito por se ver livre dele.
— Mas o que é que vais fazer com ele depois de o chocar? — perguntou Hermione.
— Bem, tenh’andado a ler — disse Hagrid, retirando um grande livro debaixo da almofada.
— Trouxe este da biblioteca — ^ Criação de Dragões para Prazer e Utilização —, ‘tá um
pouc’ultrapassado mas diz aqui tudo. Manter o ovo ao lume porque as mães respiram sobre
eles, e quando o bebé dragão nascer alimente-o com um balde de brande misturado com
sangue de galinha, de meia em meia hora. E aqui, ‘tão a ver? é como se reconhecem os
diferentes ovos. O qu’eu tenho é um dragão negro norueguês. São muito raros.
Parecia extremamente feliz consigo próprio mas Hermione não.
— Hagrid, tu vives numa casa de madeira disse ela.
Mas Hagrid não estava a ouvi-la. Sentia-se alegre enquanto reavivava o lume.
Portanto, agora tinham outra preocupação: o que poderia acontecer a Hagrid se alguém
descobrisse que ele estava a manter ilegalmente um dragão dentro da cabana.
— Pergunto-me às vezes como será ter uma vida calma — suspirava o Ron, à medida que,
serão após serão, travavam uma dura batalha para conseguir fazer todo o trabalho de casa que
lhes era passado pelos professores. Hermione tinha já começado a fazer horários de revisões
para eles os dois, o que os levava quase à loucura.
Até que uma manhã, durante o pequeno-almoço, a Hedwig trouxe ao Harry mais um
bilhete de Hagrid. Ele escrevera apenas duas palavras: Está a nascer.
O Ron queria faltar à aula de herbologia e ir direito à cabana mas Hermione nem
considerou a hipótese.
— Hermione, quantas vezes na vida vamos poder assistir ao nascimento de um dragão?
— Temos aulas e isso vai criar-nos problemas. Não fazes sequer ideia do que poderá
acontecer ao Hagrid quando alguém descobrir o que ele anda a fazer.
— Cala-te —, murmurou o Harry.
O Malfoy estava a poucos centímetros de distância e tinha parado, morto por ouvir a
conversa. Teria conseguido captar alguma coisa? Harry não gostou nem um pouco da
expressão que viu na cara dele.
Ron e Hermione discutiram durante quase todo o caminho até à aula de herbologia e no
fim ela acabou por concordar em darem a tal corrida até à cabana do Hagrid durante o
intervalo grande, a meio da manhã. Quando tocou a campainha no final da aula, os três
largaram as pequenas pás côncavas com que estavam a trabalhar e partiram apressados pelo
meio dos campos até à beira da floresta.
Hagrid cumprimentou-os excitado e entusiasmadíssimo.
— Está quase! — e fê-los entrar, sem perda de tempo.
O ovo estava sobre a mesa e tinha grandes rachas. Algo lá dentro movia-se. Ouvia-se
nitidamente um barulhinho que vinha do interior.
Todos eles puxaram as cadeiras para junto da mesa e ficaram a ouvir-lhe a batida do
coração.
De um momento para o outro houve uma espécie de arranhão e o ovo abriu-se. O bebé
dragão tombou pesadamente sobre a mesa. Não era propriamente bonito.
Segundo Harry ele parecia um guarda-chuva preto, todo amarrotado, com umas asas
enormes em comparação com o corpo escanzelado, em forma de jacto, com um nariz grande
de narinas abertas, as raízes dos corninhos à vista e uns olhos protuberantes cor de laranja.
Espirrou. Uma série de faíscas saltaram-lhe do nariz.
— Não é lindo? — murmurou o Hagrid. Estendeu uma mão para fazer uma carícia na
cabeça do pequeno dragão, mas ele tentou abocanhá-la mostrando-lhe os dentes afiados.
— Olha, ele conhece a mamã dele — disse o Hagrid.
— Hagrid —, perguntou Hermione. — Quanto tempo leva exactamente um dragão
norueguês a crescer?
Hagrid ia responder quando a cor lhe desapareceu do rosto — deu um salto até à janela.
— O que é que se passa?
Estava alguém a espreitar p’la fresta das cortinas, um garoto que vai a correr em direcção à
escola.
Harry aproximou-se da porta e espreitou. Mesmo à distância não lhe restava a menor
dúvida.
Malfoy vira o dragão.
No decorrer da semana seguinte, algo no sorriso cínico de Malfoy deixou o Harry, o Ron e a
Hermione bastante nervosos. Passaram praticamente todo o seu tempo livre na cabana do
Hagrid, tentando chamá-lo à razão.
— Deixa-o ir —, sugeriu o Harry, — liberta-o.
— Não posso —, disse Hagrid, — ele morreria logo.
Olharam para o dragão. Crescera para o triplo do tamanho em apenas uma semana. Saía-
lhe fumo pelas narinas. Hagrid deixara de fazer as suas obrigações como guarda dos campos
porque o dragãozinho mantinha-o ocupado de manhã à noite. O chão estava repleto de
garrafas vazias de brande e penas de galinha.
— Decidi chamar-lhe Norbert — disse Hagrid, olhando para o dragão com os olhos turvos
pelas lágrimas.
— Ele agora já me conhece mesmo, reparem só. ^ Norbert! Norbert! Onde está a mamã?
— Ele passou-se — murmurou o Ron ao ouvido do Harry.
— Hagrid —, gritou Harry, — dentro de quinze dias o Norbert vai ter o tamanho da tua
casa. O Malfoy pode ir denunciar-te ao Dumbledore a qualquer momento.
Hagrid mordeu o lábio.
— Eu sei que não posso ficar com ele p’ra sempre. Mas não Posso abandoná-lo, não posso.
Harry voltou-se subitamente para Ron.
— Charlie — disse ele.
— Mau, também te estás a passar? Eu sou o Ron.
— Não é isso. O teu irmão Charlie que está na Roménia a estudar dragões. Podíamos
mandar-lhe o Norbert. O Charlie podia tomar conta dele nos primeiros tempos e depois
devolvê-lo à liberdade!
— Brilhante —, disse o Ron. — E o Hagrid?
Mas no fim o Hagrid concordou e disse que podiam mandar uma coruja ao Charlie a
perguntar se ele aceitava esse encargo.
A semana seguinte passou a correr. Na quarta-feira à noite a Hermione e o Harry estavam
sentados na sala comum, depois de toda a gente ter ido para a cama, O relógio de parede
tinha batido a meia-noite quando o buraco do retrato se abriu. O Ron apareceu não se sabe de
onde, tirando o manto de invisibilidade do Harry. Estivera na cabana, ajudando a dar de comer
ao Norbert que comia agora ratos mortos através de uma grade.
— Mordeu-me —, disse ele, mostrando—lhes a mão embruihada num lenço
ensanguentado. Não vou conseguir pegar numa pena durante uma semana. Acho que aquele
dragão é o animal mais horroroso que alguma vez encontrei, mas da maneira como o Hagrid
está, parece-lhe tão fofinho como um coelho. Quando ele me mordeu, mandou-me embora
por o ter assustado e quando saí, estava a cantar-lhe uma canção de embalar.
Ouviu-se um ruído na janela escura.
— É a Hedwig! — disse o Harry, apressando-se a deixá-la entrar. — Deve trazer notícias do
Charlie!
Os três juntaram as cabeças e leram o bilhete.
^ Querido Ron
Como estás? Obrigado pela tua carta. Terei todo o gosto em tomar conta do Dragão
norueguês mas não vai ser fácil fazê-lo chegar aqui. Julgo que o melhor a fazer será mandá-lo
por uns amigos meus que vêm visitar-me na próxima semana. O problema é que não podem
ser vistos a transportar um dragão ilegal.
Poderias levar o dragão até à torre mais alta, no sábado à meia-noite? Eles irão alter
contigo e trazem o dragão enquanto está escuro.
Responde-me tão breve quanto possível.
Um abraço do teu irmão.
Charlie
Olharam uns para os outros.
— Temos o manto da invisibilidade — disse o Harry. — Não deve ser muito difícil — julgo
que ele é suficientemente grande para cobrir dois de nós e o Norbert.
O facto de os outros dois terem concordado de imediato era bem a prova de como a
semana tinha sido má. Valia tudo para se verem livres do Norbert... e do Malfoy.
Havia uma dificuldade. Na manhã seguinte a mão do Ron que fora mordida tinha inchado
para o dobro do tamanho e ele não sabia se seria prudente ir procurar Madame Pomfrey será
que ela reconheceria a ferida como sendo uma dentada de dragão?
Mas, de tarde, não teve mesmo outra alternativa. A ferida tornara-se esverdeada como se
os dentes do Norbert fossem venenosos.
Harry e Hermione correram até à ala hospitalar e foram dar com o Ron de cama, num
estado lastimoso.
— Não é só a mão —, murmurou. — Embora me doa tanto como se fosse ficar sem ela. O
Malfoy disse à Madame Pomfrey que precisava de me pedir um livro emprestado só para
poder vir aqui gozar com a minha cara. Fartou-se de me ameaçar que ia contar à Madame
Pomfrey quem me dera a dentada — eu disse-lhe que tinha sido um cão mas não sei se ela
acreditou. Eu não devia ter atacado o Malfoy no jogo de Quidditch, agora ele está a vingar-se.
Harry e Hermione tentaram acalmá-lo.
— Vai estar tudo acabado no sábado à meia-noite — disse Hermione, mas não foi o
suficiente para acalmar o Ron. Pelo contrário. Sentou-se e começou a lamentar-se.
— Sábado à meia-noite — disse numa voz sumida. — Oh! não. Oh! não, acabo de lembrar-
me, a carta do Charlie estava dentro do livro que o Malfoy levou. Ele vai descobrir tudo.
Harry e Hermione não tiveram tempo de responder porque Madame Pomfrey entrou
naquele preciso momento e mandou-os sair, dizendo que o Ron precisava absolutamente de
descansar.
— É demasiado tarde para alterar os planos —, disse Harry a Hermione. — Não temos
tempo de mandar outra coruja e esta pode ser a nossa única possibilidade de nos vermos
livres do Norbert. Há que correr o risco. E o Malfoy não sabe da existéncia do manto da
invisibilidade.
Quando foram dizer ao Hagrid que lhes abrisse a janela para poderem falar com ele, deram
com Fang, o cão de caça, sentado cá fora com uma grande ligadura na cauda.
— Não vos posso deixar entrar — respondeu quase sem fôlego.
— O Norbert está c’uma atitude que não inspira confiança. Mas não é nada qu’eu não
consiga controlar.
Quando lhe contaram da carta do Charlie, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, embora o
motivo pudesse ser também a dentada que o Norbert acabara de lhe dar numa das pernas.
— Aaargh! está bem, ele só me agarrou a bota a brincar, afinal ainda é um bebé.
O «bebé» batia com a cauda na parede, fazendo estremecer a janela. Harry e Hermione
regressaram ao castelo com a sensação de que o sábado nunca mais chegava.
Teriam sentido pena do Hagrid quando chegou o momento de este se despedir do Norbert,
se não estivessem tão preocupados com o que tinham de fazer. Era uma noite escura e cheia
de nuvens e estavam a chegar com um ligeiro atraso à cabana do Hagrid, porque tinham sido
obrigados a esperar que o Peeves saísse do caminho, no vestíbulo de entrada onde ele jogava
ténis contra a parede.
Hagrid tinha metido o Norbert numa enorme caixa de grades.
— Ele tem um monte de ratos e algum brande prà viagem — disse o Hagrid. — E meti aí um
ursinho de pelúcia p’ra ele não se sentir sozinho.
De dentro da caixa de grades vinham ruídos de rasgões que deram ao Harry a certeza que o
urso tinha acabado de ficar sem cabeça.
— Adeus, Norbert! — balbuciou Hagrid, enquanto Harry e Hermione tapavam a caixa com o
manto da invisibilidade e se cobriam também a si próprios. — A mamã nunca se vai esquecer
de ti!
Nem eles próprios perceberam muito bem como foi que conseguiram chegar com a jaula lá
acima ao castelo. A meia-noite aproximava-se enquanto levantavam com esforço o Norbert
pelas escadarias de mármore, ao longo do vestíbulo e dos corredores escuros. Mais outra
escada. E outra. Nem mesmo um dos atalhos que o Harry conhecia conseguiu facilitar-lhes a
tarefa.
— Estamos quase a chegar! — disse Harry num desejo ansioso quando atingiram o corredor
que ficava debaixo da torre mais alta.
Mas, subitamente, um movimento em frente deles fez com que quase deixassem cair a
jaula. Esquecendo-se de que estavam invisíveis, esconderam-se nas sombras, olhando para as
silhuetas escuras de duas pessoas numa luta corpo a corpo, a cerca de três metros de distância
do local onde se encontravam. Uma luz briihava no escuro.
A professora McGonagall, num roupão aos quadrados e com uma rede de dormir no
cabelo, agarrava Malfoy por uma orelha.
— Punição — gritava ela. — E vinte pontos a menos para os Slytherin! Andar por aqui a
meio da noite, como se atreve?
— Não está a compreender, professora McGonagall, o Harry Potter vem aí e tem com ele
um dragão!
— Onde é que se ouviu maior disparate! Não tem vergonha de inventar uma mentira
dessas? Vamos embora. Hei-de falar de si ao professor Snape, Malfoy!
A escada de caracol que conduzia ao cimo da torre pareceu-lhes extremamente fácil de
subir depois de tudo o resto. Só quando chegaram ao ar frio da noite retiraram o manto da
invisibilidade, aliviados por poderem respirar de novo à vontade. Hermione fez uma espécie de
dança.
— O Malfoy teve uma punição! Apetece-me cantar.
— Não cantes —, preveniu o Harry.
Rindo-se do Malfoy, esperaram. O Norbert fazia ruídos na sua caixa de grades. Cerca de dez
minutos mais tarde, quatro vassouras desceram na escuridão da noite.
Os amigos do Charlie eram um grupo bem-disposto. Mostraram ao Harry e a Hermione o
arnês que tinham preparado para poderem levar o Norbert suspenso entre eles. Todos
ajudaram a afivelar bem a jaula do Norbert e, em seguida, Harry e Hermione apertaram a mão
aos outros e agradeceram-lhes portudo.
Finalmente o Norbert ia... ia... tinha-se ido embora.
Esgueiraram-se pela escada de caracol com os corações tão leves como as mãos, agora que
não traziam o Norbert com eles. O dragão fora-se embora, o Malfoy tivera uma punição.
Haveria alguma coisa que pudesse estragar-lhes aquele momento de felicidade?
A resposta esperava-os ao fundo das escadas. Mal entraram no corredor o rosto de Filch
saiu do escuro.
— Ora, ora, parece que vocês foram apanhados!
Tinham deixado o manto da invisibilidade no alto da torre.

XV
^ A FLORESTA PROÍBIDA
As coisas não podiam ter corrido pior. Filch levou-os ao gabinete da professora McGonagall
onde ambos se sentaram sem trocar uma palavra entre si. Hermione tremia. Desculpas, álibis e
histórias para mascarar a verdade sucederam-se no cérebro de Harry, cada uma mais frágil do
que a anterior. Não conseguia imaginar como iriam sair daquela embrulhada. Estavam
encurralados. Como fora possível serem tão estúpidos e esquecerem-se do manto da
invisibilidade? Não havia qualquer razão plausível aos olhos da professora McGonagall
paraeles estarem fora das camas, vagueando pela escola a meio da noite, além de que se
encontravam na torre mais alta de Hogwarts cujo acesso apenas era permitido durante as
aulas. Se descobrissem do Norbert e do manto da invisibilidade estariam muito em breve a
fazer as malas.
O Harry pensava que as coisas não poderiam ter corrido pior? Estava redondamente
enganado. Quando a professora McGonagall apareceu, vinha a seguir o Neville.
— Harry — gritou o Neville, logo que viu os outros dois.
— Estava a tentar encontrar-vos para vos avisar de que ouvi o Malfoy dizer que ia apanhar-
vos. Ele disse que vocês tinham um drag...
Harry fez um brusco sinal com a cabeça para que ele se calasse mas a professora
McGonagall tinha ouvido. Mais do que o Norbert, parecia que ia lançar fogo pela boca quando
se aproximou dos três.
— Era a última coisa que esperava de qualquer de vocês. O senhor Filch diz que estiveram
na torre da astronomia. É uma da manhã. Estou à espera das vossas explicações.
Era a primeira vez que Hermione não conseguia responder a uma pergunta feita por um
professor. Olhava para os chinelos, quieta como uma estátua.
— Julgo que sei o que se passa aqui disse a professora McGonagall. — Não é preciso ser um
génio para lá chegar.Vocês aldrabaram o Draco Malfoy com uma história qualquer de um
dragão, tentando fazê-lo sair da cama e meter-se em sarilhos. A ele já o apanhei. Calculo que
achem imensa graça ao facto de o Longbottom também ter acreditado!
Harry viu nos olhos do Neville uma onda de tristeza e de espanto. Tentou dizer-lhe com o
olhar que não era verdade. Pobre Neville — Harry calculava o quanto devia ter sido dificil para
ele tentar encontra-los para os avisar, sozinho naqueles corredores escuros.
— Estou desiludida convosco — disse a professora McGonagall. — Quatro alunos fora da
cama numa única noite! É a primeira vez que isto me acontece. Hermione Granger, pensei que
a menina tinha mais juízo. Quanto a si, Potter, acreditei que Gryffindor tinha mais significado
para si do que isto. Vocês os três vão receber punições — sim, você também Longbottom,
nada lhe dá o direito de andar a passear pela escola à noite, principalmente nestes dias. É
extremamente perigoso — e cinquenta pontos serão retirados aos Gryffindor.
— Cinquenta? — resmungou Harry, — assim perdemos a liderança que tínhamos
conquistado no campeonato de Quidditch!
— Cinquenta pontos cada — disse a professora McGonagall —, respirando pesadamente
pelo nariz pontiagudo.
— Professora, por favor...
— Não pode...
— Não me digas o que eu posso ou não fazer, Potter. Agora, volta para a cama. Nunca os
alunos dos Gryffindor me envergonharam tanto.
Cento e cinquenta pontos perdidos. Aquilo colocava os Gryffindor em último lugar. Numa
única noite eles tinham destruído todas as possibilidades dos Gryffindor ganharem a taça de
clubes. Harry sentiu um peso de chumbo no estômago. Como poderiam alguma vez redimir-
se?
Harry não dormiu durante toda a noite. Ouviu o Neville, tentando abafar os soluços na
almofada durante o que lhe pareceu terem sido horas e horas. Não sabia o que fazer para o
animar. Calculava que o Neville, tal como ele próprio, receava o dia seguinte. O que poderia
acontecer quando os outros Gryffindor descobrissem o que eles lhes tinham feito?
A princípio, quando passaram pelas gigantescas ampulhetas que marcavam os pontos da
equipa, os Gryffindor pensaram que tinha havido um engano. Como é que podiam de um
momento para o outro ter cento e cinquenta pontos a menos do que no dia anterior? Mas
depois a história começou a espalhar-se: Harry Potter, o famoso Harry Potter, o seu herói dos
jogos de Quidditch, fizera-os perder todos aqueles pontos, ele e um grupo de estúpidos do
primeiro ano.
Harry passou de um dos colegas mais populares e admirados da escola ao mais detestado.
Até os Ravenclaw e os Hufflepuff lhe viravam a cara porque todos eles tinham acalentado a
esperança de ver os Slytherin perder a taça. Para onde quer que ele se voltasse havia gente a
apontá-lo a dedo, que nem se dava ao trabalho de baixar a voz enquanto se referiam a ele em
termos insultuosos. Os Slytherin, pelo contrário, batiam palmas e agradeciam quando Harry
passava por eles. Obrigado, Potter, estamos em dívida para contigo!
Só o Ron ficou ao seu lado.
— Todos vão esquecer isto dentro de poucas semanas. O Fred e o George perderam
imensos pontos ao longo da sua estada aqui e toda a gente gosta deles.
— Mas nunca perderam cento e cinquenta de uma vez só, pois não? — disse o Harry
infelicíssimo.
— Bem, isso não —, admitiu o Ron.
Era um pouco tarde para reparar o mal, mas Harry jurou a si próprio que a partir de então
não voltaria a meter-se em coisas que não lhe dissessem respeito. Não ia mais espreitar nem
coscuvilhar. Sentiu-se tão envergonhado que foi ter com o Wood para se demitir do clube de
Quidditch.
— Demitir? — gritou o Wood. — E para que serviria isso?
Como é que iremos conseguir pontuar se não ganharmos no Quidditch?
Mas até o Quidditch tinha perdido o interesse para ele. Os colegas não lhe dirigiam a
palavra durante os treinos e, quando eram obrigados a referir-se a ele, diziam o 1 ... 10 11 12 13 14 15 16 17 18
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